E a estrada acaba. Chego no que parece ser a última porteira. A minha porteira. Bom, a porteira que construí. Desculpe. Ela não é minha. Nem ela e nem nada. Bom, agora só me resta atravessar.
Andar, não há mais como. A estrada acabou.
Pergunto-me se chego onde queria, ou se completo meu percurso, pois posso estar tanto chegando como indo embora.
Depende do que me olha e de onde olha.
Ficou pra trás esse chão batido de terra, essas árvores secas que buscam forças nas águas mais profundas daquele chão que sofre, luta e vibra pra colorir minha paisagem.
A paisagem. Perdão.
Passo a porteira sem me preocupar em fechar. Caminho sobre pedras que carreguei com ajuda de rodas. Rodas e rodas que nos voltam e vivem.
Sensação de que é a primeira vez ali. Não é a primeira, mas com certeza é outra. Outras coisas. Novas coisas me chamam atenção. Nos rios do coração também não se entra duas vezes. A cada agora uma nova água.
Cada passo novos toques de consciência. E mais um passo e uma pedra eram o que me preparava para a próxima porta. Porta da casa.
Minha casa? Uma casa. A casa!
A casa que construí com ajuda de rodas. Rodas e rodas que nos levam e elevam.
Giro. Entro girando porque todos os lados me interessam. Vejo que tudo vive, tudo muda, se transforma, mas nem tudo envelhece.
Eu envelheci. E estou mais leve.
Bato a porta e sigo curioso e manso. Percebo que a porta não fechou. Insisto e ela insistiu em não se fechar. Bom... Respeito. Sigo sem fechar a porta.
Eu atravessei o meu limite. Até então vivia no limite.
Tudo podia cair e naturalmente aceitava e deixava que acontecesse.
E agora ultrapassei qualquer limite que poderia existir. Simplesmente porque vi...
Não há limites.
Vivia longe do limite. Vivi no limite. E vi e agora que vivo sem limites.
Criei todas as fronteiras e agora as derrubo. Simplesmente porque vi.
Vi que aquela chama não havia se apagado até Hoje. Tanto tempo. Envelheci e a vela permaneceu acesa. Até agora! Olhei de lado e se escureceu.
Aquela luz moderada que iluminava toda a casa se apagou e me deixou a pensar.
Ali em pé, olhando de lado e não enxergando nada. Não conhecia mais as direções
externas. Via somente a mim mesmo e me agachei naquele chão e alcancei o meu chão.
E o chão balançou. Em alto mar surfando no meu tal. Dissolvi e percorri cada grão da terra e cada camada dos vários chãos que ali existiam.
Simplesmente vi e senti a integração naquela formação geológica do meu ser.
Montanhas, planaltos, montes e vales em pleno alto mar.
Em constante movimento e transformação, indo ao vento e atravessando cada gota do oceano.
Partículas de mim voam, nadam, sugam e se desfazem nesse chão líquido que balança. Dança
e me encanta na vertigem desse mar azulmarrom.


